Um vaso encharcado tem volta quando ainda sobra raiz clara e firme, e o primeiro socorro é tirar a água parada no mesmo dia. Foi assim com o meu alecrim, que passou uma semana de chuva dentro de um cachepô sem furo na varanda e ainda levou duas regas minhas por cima.
Ele perdeu mais ou menos um terço dos ramos e ficou quase um mês parado. Hoje tá de novo na beirada, num vaso de barro. Conto aqui a ordem do que fiz, o que olhei na raiz e o que mudou na minha rotina de rega depois disso.
Como percebi que o problema era água demais
Naquela semana choveu quase todo dia. Eu trouxe pra sala os vasos que ficam na beirada da varanda, mas o alecrim ficou no canto, perto da parede, porque ali a chuva quase não chega. Esqueci que ele morava dentro de um cachepô de cerâmica, e cachepô não tem furo.
Na segunda-feira os ramos estavam caídos, com as pontas viradas pra baixo. Planta murcha, pra mim, era planta com sede. Reguei. Na quarta ele estava pior e eu reguei de novo.
Só na sexta fui levantar o vaso pra varrer a varanda e estranhei o peso. Quatro sinais apareceram juntos:
- o vaso pesava quase o dobro do normal;
- a terra estava escura e brilhando por cima, cinco dias depois da última chuva forte;
- o palito de churrasco que eu deixo espetado saiu molhado e com terra grudada até em cima;
- quando tirei o vaso de dentro do cachepô, veio um cheiro azedo, de pano de chão guardado úmido.
No fundo do cachepô tinha uns dois dedos de água parada. A raiz estava de molho havia dias. Se eu tivesse feito o teste do dedo antes de regar na segunda-feira, teria sentido a terra molhada e largado o regador.
O que fiz no mesmo dia
Fiz tudo na sexta à noite, em cima de jornal aberto no chão da varanda. Levou uns quarenta minutos.
- Tirei a água parada. Esvaziei o cachepô na pia e deixei ele de lado. O vaso de plástico de dentro ficou sem pratinho.
- Inclinei o vaso. Apoiei ele deitado de lado na borda do tanque por uns dez minutos. Saiu mais água do que eu esperava, quase meio copo.
- Desenformei. Apertei as laterais do plástico, segurei a planta pela base e virei. O torrão saiu inteiro, pesado, pingando.
- Soltei a terra velha. Com os dedos, fui desmanchando o torrão de fora pra dentro, sem puxar raiz. Mais ou menos metade da terra caiu sozinha.
- Olhei a raiz e cortei o que estava mole. Usei a tesoura de cozinha, lavada com detergente antes.
- Enrolei o que sobrou em jornal seco. Três folhas de jornal em volta do torrão, por uma hora, pra puxar a umidade. Troquei o jornal uma vez no meio do caminho.
Não lavei a raiz na torneira. Ela já tinha recebido água demais, e raiz encharcada quebra fácil na mão.
O que a raiz mostrou
Eu nunca tinha olhado raiz de alecrim de perto. Deu pra separar o que vi em quatro situações, e cada uma pediu uma coisa.
| O que eu vi | O que quer dizer | O que fiz |
|---|---|---|
| Raiz clara, quase bege, que não cede quando aperta | Raiz viva | Deixei como estava |
| Raiz marrom-escura que desmancha entre os dedos e solta a casca | Raiz apodrecida | Cortei um dedo acima da parte mole |
| Raiz escura, mas firme | Raiz suja de terra molhada, ainda viva | Deixei e fiquei de olho |
| Cheiro azedo vindo do miolo do torrão | Terra sem ar há dias | Tirei essa terra toda |
No meu caso, o fundo do torrão estava perdido e a parte de cima estava boa. Cortei perto de um terço das raízes. Pra equilibrar, podei também os ramos mais caídos, quase um terço da copa, porque pouca raiz não dá conta de muita folha.
Se ao desenformar tudo estiver marrom e mole, sem nenhum fio claro, a chance é pequena. Eu tentaria tirar estacas dos ramos ainda verdes antes de jogar o vaso fora.
Troquei a terra, e o vaso também
A terra velha foi pro lixo. Ela cheirava mal e eu não quis levar aquilo pro vaso novo. Usei terra de um saco já aberto, que estava seca, misturada com areia grossa lavada: três potes de sorvete de terra pra um de areia.
Troquei o vaso de plástico por um de barro do mesmo tamanho, com 20 centímetros de boca. O barro perde água pela parede e seca mais depressa, o que ajuda uma raiz que acabou de passar por isso. Vaso maior eu não quis: sobra terra em volta, e terra sem raiz demora a secar.
No fundo foi a camada de sempre, argila expandida com um pedaço de TNT por cima. Expliquei essa montagem no texto sobre o que colocar no fundo do vaso. O cachepô de cerâmica saiu da varanda e virou porta-treco na área de serviço.
Os primeiros dias depois do replantio
Plantei na terra seca e não reguei. Essa foi a parte mais difícil, porque o alecrim continuava murcho e a vontade era dar água.
O vaso ficou cinco dias dentro de casa, perto da porta da varanda, num lugar claro e sem sol batendo. Sol forte numa planta com pouca raiz seca a folha mais rápido do que a raiz consegue repor. Deixar no sol pra secar a terra também não funciona: a superfície seca e o miolo continua molhado.
A primeira rega veio no sexto dia, quando o palito saiu limpo até o fundo. Coloquei pouca água, meio copo, devagar e em volta do caule. Depois disso só reguei com o palito seco, o que deu um intervalo de quatro a cinco dias naquele mês.
Adubo, nenhum. Raiz cortada não aproveita adubo e ainda pode queimar. Voltei a adubar só quando apareceu broto novo.
Quanto tempo levou para ele reagir
Na primeira semana ele piorou de aparência. Alguns ramos que eu tinha poupado secaram de vez e caíram folhinhas todo dia. Varri agulha de alecrim do chão da sala por uns dez dias.
Na segunda semana parou de piorar. Os ramos que sobraram ficaram de pé e as pontas deixaram de pender. Algumas folhas de baixo amarelaram nessa fase, coisa comum depois de raiz encharcada, como aparece na tabela do texto sobre folhas amarelas.
O primeiro broto novo, verde-claro, apareceu com umas três semanas. Aí devolvi o vaso pra varanda, primeiro no canto e, uma semana depois, na beirada onde bate o sol da manhã. Pra voltar ao tamanho de antes ele levou uns três meses.
O que mudei na varanda depois disso
Mudei duas coisas pequenas. Em semana de chuva eu tiro o pratinho de todos os vasos que ficam do lado de fora e só devolvo quando o tempo firma. E planta murcha não ganha água antes de eu enfiar o dedo na terra.
Cachepô sem furo eu ainda uso dentro de casa, com a jiboia, mas levanto o vaso de dentro uma vez por semana pra ver se juntou água no fundo. Na varanda, onde a chuva entra de lado, ele não fica mais.
Perguntas frequentes
Como saber se a raiz apodreceu?
Raiz apodrecida é marrom-escura ou preta, mole, e a casca sai na mão deixando um fio fino no meio. Costuma ter cheiro azedo. A raiz viva é clara e firme. Só dá pra ter certeza tirando a planta do vaso.
Planta encharcada precisa trocar de terra?
Se a terra só está molhada e sem cheiro, dá pra esvaziar o pratinho, inclinar o vaso e esperar secar. Com cheiro ruim ou raiz mole, eu troco tudo, porque a terra velha continua úmida no miolo por muitos dias.
Posso colocar o vaso no sol para secar mais rápido?
Eu não coloco. O sol seca a camada de cima e esquenta o vaso, mas o fundo continua molhado, e a planta com pouca raiz murcha ainda mais. Lugar claro e ventilado funcionou melhor aqui.
Quanto tempo esperar para regar de novo?
Até a terra secar no fundo do vaso. No meu alecrim foram seis dias depois do replantio em terra seca. Num vaso que não foi replantado pode passar de dez dias. O palito ou o dedo decidem, e cada vaso tem o seu prazo.
Se você tem um vaso murcho com a terra molhada agora, comece levantando ele: sinta o peso, olhe o pratinho e cheire a terra. Se tiver água parada, esvazie hoje e deixe o vaso inclinado por dez minutos antes de decidir se precisa desenformar.
